O estilo de Ted Lasso
Sim, é possível uma série abordar temas difíceis sendo otimista e sem ser piegas
Há alguns anos, fui ao cinema assistir um musical que estava fazendo bastante sucesso. Era a história divertida de um casal que estava em ascensão na carreira, com músicas grudentas e cenas bonitas. Não vou falar o título para evitar spoilers, e espero que minha descrição tenha sido vaga o suficiente. Tinha tudo pra ser aquilo que o gringo chama de feel-good movie, um filme pra se sentir bem, pra dar um quentinho no coração, inclusive há quem o inclua em listas de feel-good movies, mas eu discordo.
No final do filme, o casal de protagonistas não ficava junto. Saí do cinema arrasado, tanto pela forma que o filme terminava, quanto pelo fato que as poltronas do cinema em que fui eram duras como tábuas de passar. Também não ajudava o fato que na época eu estava num relacionamento que caminhava para seu fim, então a última coisa que eu queria naquele momento era ir ao cinema ver algo que a imprensa dizia ser um feel-good movie e pensar sobre términos. Desabafei pra uma amiga, falei que eu havia gostado do filme, mas que o casal bem que podia ter ficado junto no final. Ela me falou que eu era muito romântico, que às vezes a vida era assim mesmo.
Aí está o problema: a vida é assim mesmo e, às vezes, desejo que a ficção não seja uma representação fiel da vida, mas sim um refúgio.
Não estou defendendo que toda forma de arte seja piegas ou que o gênero drama seja abolido do audiovisual. Quem sou eu pra pautar o que Hollywood pode ou não pode? Programadores não são conhecidos por suas colaborações positivas às formas de fazer arte. Já do ponto de vista de quem consome arte, frequentemente me parece que as pessoas que escrevem roteiros pensam “hmm, tudo está funcionando muito bem, vou colocar uma tragédia aqui no meio pra sacudir o espectador da poltrona”. Parece que, numa avassaladora onda de realismo, se o roteiro não for violentamente empalado por uma grande tragédia entre o segundo e o terceiro ato1 ou não encerrar com uma vitória custosa e amarga, o braço que segura a caneta que escreve a história vai apodrecer e cair.
A franquia do James Bond mata um personagem dos mocinhos em todo filme porque precisa renovar o elenco; eu já começo a assistir filmes da Marvel pensando qual personagem vai morrer sem acréscimo algum à história; uma série de comédia que eu assistia não soube a hora de parar e achou uma boa matar um personagem importante nos últimos minutos do último episódio; a Netflix é campeã em sugerir coisas na categoria “good vibes” ou “comédias para fim de noite” que você olha e pergunta “mas essa história é cheia de gatilhos e conflitos, quem achou que era uma boa ideia categorizar como ‘comédia’?”.
De novo, nada contra o drama ou grandes tragédias na arte. Se abolíssemos o gênero comédia-drama, não teríamos o espetacular Forrest Gump, só pra puxar o primeiro exemplo que me vem à mente. Indo mais pro lado das sérias dramáticas, eu gosto da também recente Succession2, série bad vibes onde é impossível nutrir amor por qualquer personagem.
Mas existe um lugar televisivo onde as coisas caminham para melhor, e eu não sabia que isso era possível sem soar idiota. O que me provou estar errado foi Ted Lasso, série da Apple TV.
Pedi pro ChatGPT me resumir o enredo de Ted Lasso:
“Ted Lasso” é uma série que acompanha Ted, um treinador de futebol americano que é contratado para treinar um time de futebol inglês, mesmo sem experiência no esporte. Com sua atitude positiva e otimista, ele busca unir a equipe, superar desafios e conquistar o respeito da comunidade, enquanto lida com suas próprias questões pessoais. A série aborda temas como trabalho em equipe, superação e amizade, com um toque de humor e mensagens inspiradoras.
Só tem um pequeno detalhe: eu odeio futebol. Eu não assisto nem Copa do Mundo (pois é futebol). Eu não aguento pessoas falando sobre futebol. Eu fico agoniado se entro num bar e tem futebol na TV e pessoas gritando, o que inclusive aparece muito em Ted Lasso.
Então, quando comecei a ver pessoas falando sobre Ted Lasso e fui procurar do que se tratava, me esquivei várias vezes ao ver que a série tinha o futebol como pano de fundo. Até que um dia pensei em dar uma chance, e aqui estou eu falando pra quem quiser ler sobre uma série que envolve futebol.
O enredo que o ChatGPT soltou acima também fala em otimismo. É aqui que a série se destaca. Não é a positividade tóxica dos perfis gratiluz de auto-ajuda do Instagram com frases rasas estampadas em imagens e assinadas pelo autor do perfil. Não são três temporadas sem conflitos ou tragédias, pelo contrário: a série aborda divórcio, assédio, machismo, saúde mental, racismo, homofobia, trabalho, traição, conflitos parentais, colonização.
Onde a série Ted Lasso se diferencia, então?
Foi com Ted Lasso que eu percebi que eu estava viciado em um tipo de roteiro. Sempre que algo acontecia, eu pensava “esse personagem vai se dar mal”. Mas o roteiro dava uma volta, pequena ou grande, e as coisas se encaixavam satisfatoriamente como peças de Lego. Ted Lasso, o protagonista, é como um fio que une as pessoas e as torna melhores. E, como um pequeno efeito dominó, cada pessoa ao seu redor causa outras mudanças.
Quando recomendei Ted Lasso pras pessoas durante suas três temporadas, eu sempre dizia para assistirem um episódio de Ted Lasso de noite e irem pra cama sem pegar no celular. Eu ia dormir mais leve, com aquela impressão de que existem pessoas ruins e problemas no mundo, mas que há qualquer coisa nas nossas ações que podem não mudar o mundo, mas podem melhorar quem está perto.
Cheguei a ler críticas de algumas pessoas sobre alguns arcos serem otimistas demais, mas eu não me importo. Se eu assisto Succession esperando personagens puxando os tapetes uns dos outros, em Ted Lasso eu esperava ver redenção e foi isso que a série me entregou.
E aqui estou eu: tentando convencer minha família, minha terapeuta, meus amigos e você (espero que eu possa considerar você parte dos amigos) a assistirem Ted Lasso.
Todas as imagens da série Ted Lasso acima foram tiradas do site da Apple TV com imagens de divulgação.
O que os gatos andam fazendo?
Escrevi a última edição dessa newsletter em agosto (temo que essa vá ser uma newsletter anual). De lá pra cá muita coisa mudou. O gato António, em pé na foto, tem estado mais sociável e miado com mais frequência, provavelmente influenciado pela irmã Maria Inês, que é sempre falante. ❤️

Uma vez eu li que, se você quer soar como alguém que entende de cinema, fale da fotografia do filme ou sobre use termos como “entre o segundo e terceiro ato”.
Harriet Walter, atriz inglesa, participa de Succession e Ted Lasso.




